02 janeiro 2013

[Resenha] Caim - José Saramago

Título original: Caim
Autor: Jose Saramago
Minha edição: Companhia das Letras

"Se, em O Evangelho segundo Jesus Cristo, José Saramago nos deu sua visão do Novo Testamento, neste Caim ele se volta aos primeiros livros da Bíblia, do Éden ao dilúvio, imprimindo ao Antigo Testamento a música e o humor refinado que marcam sua obra. Num itinerário heterodoxo, Saramago percorre cidades decadentes e estábulos, palácios de tiranos e campos de batalha, conforme o leitor acompanha uma guerra secular, e de certo modo involuntária, entre criador e criatura. No trajeto, o leitor revisitará episódios bíblicos conhecidos, mas sob uma perspectiva inteiramente diferente.

Para atravessar esse caminho árido, um deus às turras com a própria administração colocará Caim, assassino do irmão Abel e primogênito de Adão e Eva, num altivo jegue, e caberá à dupla encontrar o rumo entre as armadilhas do tempo que insistem em atraí-los. A Caim, que leva a marca do senhor na testa e portanto está protegido das iniquidades do homem, resta aceitar o destino amargo e compactuar com o criador, a quem não reserva o melhor dos julgamentos. Tal como o diabo de O Evangelho, o deus que o leitor encontra aqui não é o habitual dos sermões: ao reinventar o Antigo Testamento, Saramago recria também seus principais protagonistas, dando a eles uma roupagem ao mesmo tempo complexa e irônica, cujo tom de farsa da narrativa só faz por acentuar. 

A volta aos temas religiosos serve, também, para destacar o que há de moderno e surpreendente na prosa de Saramago: aqui, a capacidade de tornar nova uma história que conhecemos de cabo a rabo, revelando com mordacidade o que se esconde nas frestas dessas antigas lendas. Munido de ferina veia humorística, Saramago narra uma estranha guerra entre o homem e o senhor. Mais que isso, investiga a fundo as possibilidades narrativas da Bíblia, demonstrando novamente que, ao recontar o mito e confrontar a tradição, o bom autor volta à superfície com uma história tão atual e relevante quanto se pode ser."

Um livro altamente irônico e polêmico, este é Caim. José Saramago reconta, de forma cética, a conhecida história do primogênito de Adão e Eva e irmão-assassino de Abel. O tom irreverente de Saramago cria um ar engraçado em meio a história bíblica, intimidando leitores conservadores e ganhando a imensa desaprovação por parte da Igreja Católica. 

José Saramago reconta, primeiramente, a história bíblica de Adão e Eva, até o momento da expulsão do Jardim do Éden. Então, a história concentra-se em Caim que, após matar seu irmão, é castigado por Deus (no livro, todos os nomes são escritos com letra minúscula, inclusive "Deus") que lhe dá uma marca que impossibilita o pecador de sofrer os impropérios do homem. Caim, então, começa a passar por fluxos temporais, interagindo com vários personagens bíblicos, como Noé, Abraão, Ló, Jó, Moisés e Josué. Durante essas passagens, Caim se vê cada vez mais enraivado com Deus, tramando sua vingança contra o Senhor.

O autor, antes de tudo, se mostra dono de uma forte opinião em relação a religião e usa de uma fantástica forma de compor seu romance, investindo diversas vezes contra o "senhor" e mostrando sua opinião em relação ao mesmo. Não é por menos que Saramago é o único autor de língua portuguesa vencedor do Prêmio Nobel (claro, até eu lançar os meus livros). 

Sem dúvida, Caim entrou para a lista de meus livros favoritos. Além de ser uma leitura relativamente fácil, por conta de a ortografia ser a vigente em Portugal acabei tendo algumas atividades, o livro mostra de uma forma diferente não só as história bíblicas recontadas, mas toda a questão da religião e o fanatismo que muitas vezes é empregado. E discutir sobre religião é umas das coisas que mais gosto de fazer. Além disso, ganhei esse maravilhoso livro de um amigo que admiro muito. Muito obrigado pelo belíssima leitura, estimado amigo!

José de Sousa Saramago nasceu no ano de 1922 em uma pequena aldeia de Portugal. Durante sua vida exerceu diversas atividades, como serralheiro mecânico, desenhista, funcionário público, editor e jornalista. Seu primeiro livro foi publicado em 1947, mas foi apenas em 1976 que passou a viver de literatura, primeiramente como tradutor e depois como autor. Romancista, teatrólogo e poeta, em 1998 tornou-se o primeiro autor de língua portuguesa a receber o Prêmio Nobel de Literatura. Saramago faleceu em Lanzarote, nas Ilhas Canárias, em 2010.

3 comentários:

  1. José Saramago é o exemplo vivo (vivo porque a pessoa faleceu, mas sua obra permanecerá para sempre) de que não importam os temas e os assuntos. A roupagem que o escritor imprime ao texto é que fazem dele interessante ou não, original ou mera cópia sem valor. E os empréstimos cujo autor toma para si tornam sua obra ainda mais viva e interessante. Em "Caim", Saramago traz o Antigo Testamento para a Academia de uma forma árida, assim como o fez anteriormente com "O Evangelho segundo Jesus Cristo" (neste segundo caso, referindo-se ao Novo Testamento).
    Outra obra interessante do autor é "O ano da morte de Ricardo Reis", em que toma emprestado o heterônimo de Fernando Pessoa - Ricardo Reis - e dá à biografia do mesmo um desfecho, um ano de morte (já que o ortônimo - Fernando Pessoa - não o fez).
    É interessante essa rede que constrói Saramago, pois mexe diretamente com a intertextualidade e com os conhecimentos de mundo de cada um de nós. Se você conhece bem o "Antigo Testamento", poderá usufruir de "Caim" melhor do que aqueles que não conhecem; se já leu o "Novo Testamento", "O Evangelho Segundo Jesus Cristo" se tornará ainda mais rico; se conhece Fernando Pessoa e seus principais heterônimos e as distintas literaturas de cada um (Álvaro de Campos, Alberto Caeiro e Ricardo Reis), encontrará em "O ano da morte de Ricardo Reis" uma árvore repleta de ramificações intertextuais e intratextuais.
    Acredito que seja por tudo isso que, quando você registra uma obra junto ao Escritório de Direitos Autorais da Biblioteca Nacional, por exemplo, o que é assegurada é a forma de sua construção e não a sua ideia - as ideias, afinal, estão todas "no ar". O importante é bem aproveitá-las.
    Parabéns pelo blog e parabéns por sua resenha.
    Um abraço.

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  2. Muito boa sua resenha, realmente este livro é fantástico, eu só não diria que ele foi escrito de maneira cética, mas sim crítica, pois as histórias certeiras da bíblia foram narradas com exatidão, enquanto os detalhes (as vezes nao especificados na biblia) foram narrados ao gosto do autor. Por exemplo, todos sabemos que Adão e Eva foram expulsos do paraíso, mas como eles viveram depois disso não está na bíblia. Por fim, se me permitem um spoiler, achei triunfal a ideia de Caim no livro, ele odeia tanto Deus que descobre um jeito de matar deus, matar um ser imortal como deus, para gente pode parecer impossível, mas para Caim é possível e ele ainda consegue nos convencer disso, e ainda levanta a dúvida: deus e homem, quem precisa mais de quem?

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  3. Bela resenha do livro Caim, que tive o prazer de adquirir um exemplar em Lisboa, no final de 2009, época do seu lançamento. Como é peculiar de Saramago, ele utiliza uma linguagem irônica, ácida sobre a história de Caim. Saramago questiona a tirania de Deus nesse livro e nos faz também questionar as interpretações bíblicas impostas pelas religiões. Como diz Saramago "Que diabo de Deus é este que, para enaltecer Abel, despreza Caim?" Saramago não questiona Deus, questiona sim a humanidade. Vale muito a pena ler o último livro desse escritor genial.

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