28 janeiro 2013

[Resenha] Cidade de Deus - Paulo Lins

Título original: Cidade de Deus
Autor: Paulo Lins
Minha edição: Planeta

"Neste seu romance de estreia, Paulo Lins faz um painel das transformações sociais pelas quais passou o conjunto habitacional Cidade de Deus: da pequena criminalidade dos anos 60 à situação de violência generalizada e de domínio do tráfico de drogas dos anos 90. Para redefinir a situação do lugar onde cresceu, Lins usa o termo "neofavela", em oposição à favela antiga, aquela das rodas de samba e da malandragem romântica. 

O livro se baseia em fatos reais. Grande parte do material utilizado para escrevê-lo foi coletado durante os oito anos (entre 1986 e 1993) em que o autor trabalhou como assessor de pesquisas antropológicas sobre a criminalidade e as classes populares do Rio de Janeiro. Cidade de Deus foi saudado como uma das maiores obras da literatura brasileira contemporânea. 

Um dos principais críticos do país, Roberto Schwarz observou a capacidade do autor de transpor para a literatura uma situação social deteriorada, aliando em sua narrativa a agilidade da ação cinematográfica e o lirismo da poesia. Segundo Schwarz, 'o interesse explosivo do assunto, o tamanho da empresa, a sua dificuldade, o ponto de vista interno e diferente, tudo contribuiu para a aventura artística fora do comum'."

Primeiramente quero deixar bem claro que a minha opinião é referente só e somente ao livro. Não vi o filme (por completo) e não estou criticando o mesmo. As opiniões e revelações aqui expressas são de total responsabilidade do autor.

Cidade de Deus não foi um livro fácil para mim. Foram quase três semanas inteiras de leitura (duas semanas e quatro dias, para ser exato) de um livro que eu leria em, no máximo, duas semanas. As gírias, os diálogos rápidos e o modo como Paulo Lins narra os acontecimentos são os culpados disso. Por muitas vezes, me pareceu que o autor queria contar o maior número possível de histórias de diferentes personagens, por isso buscava terminar logo com um personagem e iniciar com outro. Assim que eu lia um apelido novo (os nomes raramente são usados), já sabia que ou o personagem seria preso ou morreria. 

Com essa notável necessidade do autor de narrar os vários acontecimentos de uma diversidade bem grande de histórias, a trama principal por muitas vezes acabou se perdendo. Paulo Lins buscou colocar no papel o máximo possível de informações referentes as suas pesquisas na favela em que cresceu e que é o cenário do livro, mas pecou ao descrevê-las. Alguns acontecimentos considerados importantes para a trama acabaram por ser praticamente sintetizados, enquanto outros não tão importantes ganharam uma riqueza de detalhes. Uma passagem chocante e que foi imensamente descrita (desculpem-me pelo spoiler) é a de um caso em que o marido desconfiava que a mulher o traía e, sendo assim, o filho recém nascido não era dele. Movido pelo ódio, ele corta os braços e pernas do bebê, coloca os restos mortais em uma caixa de sapatos e dá de presente para a mulher promiscua. Eu nunca vou esquecer isso. 

O livro é escrito em terceira pessoa, com uma extensa narrativa descrevendo o modo de vida de seus personagens, desde a infância dos bandidos até a maturidade do crime como forma de sobrevivência. Um cenário em que a violência comanda os destinos, imperando a lei do mais forte. O consumo de drogas e o prazer do sexo são predominantes, bem como a forma naturalmente cruel de os bandidos matarem uns aos outros. 

A trama é dividida em três partes, modificadas nas edições posteriores do livro. A primeira parte, antigamente 'A História de Cabeleira' e que se tornou 'A História de Inferninho', narra a ocupação do conjunto habitacional Cidade de Deus após as enchentes da década de 60. São descritas a formação das primeiras quadrilhas e o modo de vida dos bandidos, que buscavam fazer um grande assalto para viver o resto da vida como os burgueses. A segunda parte, 'A História de Bené' modificada para 'A História de Pardalzinho', descreve uma nova geração de criminosos, que protegem a comunidade com o intuito de conquistar mais "fregueses" para o tráfico de drogas. Há uma disputa pelo comando da favela, mas a ascensão vem para Zé Miúdo (o famoso Zé Pequeno) com sua violência crescente e toda a sua coragem. A terceira e última parte, 'A História de Zé Pequeno' ou 'A História de Zé Miúdo', narra a guerra em si. Zé Bonito (Manoel Galinha no livro original) é o justiceiro da favela, aquele que mataria o tirano e traria a paz para a comunidade. Surgem as grandes quadrilhas inimigas: uma parte ao lado de Zé Miúdo e outra ao lado de Zé Bonito. Todos os acontecimentos da guerra são descritos, até o momento final da trama, que me pareceu bastante fraco. É como se muito do que era contado no decorrer do livro ficasse a ver navios.

Senti falta de um enredo bem estruturado durante todo o livro. Me perdi diversas vezes na leitura e tive de voltar algumas páginas para entender o que estava acontecendo. Apesar de todos os pormenores, Cidade de Deus é um livro merecedor de uma nota alta. A violência descrita é, sim, bastante exagerada, mas é real. Todos os acontecimentos revoltantes realmente podem acontecer, ou terem acontecido, em meio as favelas. Talvez tenha sido esse o fato que desencadeou um sentimento de angustia e, sinceramente, de medo em mim. Tive medo de virar a página e encontrar a história de mais um bebê assassinado ou de um criminoso morto cruelmente. Mas, pensando bem, acho que é esse o intuito do autor: chocar o público e mostrar a realidade em meio as favelas. Não posso dizer que recomendaria o livro para qualquer pessoa, porque poderia ganhar o ódio destas. Só posso dizer que é um bom livro para quem deseja algo chocante.

Paulo Lins nasceu no Rio de Janeiro no ano de 1958 e cresceu em meio a favela Cidade e Deus, cenário e título de sua maior obra. Começou como poeta, na década de 80, como integrante do grupo Cooperativa de Poetas, por onde publicou seu primeiro livro de poesia: Sobre o Sol. Graduado no curso de Letras, foi contemplado com a Bolsa Vitae de Literatura. Participou como assistente de um estudo sociológico em favelas do Rio e nesse período, com base nas diversas pesquisas, escreveu Cidade de Deus. Tem se dedicado a roteiros para filmes e seriados brasileiros. 

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